Nas décadas de 1970 e de 1980 mulheres travam uma luta, que se volta, fundamentalmente, para desmistificar a existência da universalidade humana e trata de desocultar e de apontar para a pluralidade entre os humanos. Não há apenas um ser universal portador de direitos na sociedade, representado pelo homem. Existem sim, dois sexos e dois gêneros humanos: o homem e a mulher.

A luta das mulheres trata então, de desfazer a máscara da igualdade ocultada no discurso moderno dos direitos universais humanos e denuncia na sua institucionalidade as práticas opressoras, hierárquicas e injustas nas relações entre homens e mulheres. Movimentos de mulheres e feministas avançam para denunciar o tratamento desigual às mulheres no trabalho, na família, na política, na Igreja, enfim, escavam os mais variados lugares para desocultar, afirmar e empoderar um sujeito social, econômico e político – a mulher. Afirmam a sua diferença frente ao homem e lutam por direitos iguais.

Algumas feministas querem crer que emerge uma dicotomia no interior da luta feminista ao tratar a diferença-igualdade como oposição. Prefiro considerá-las como bons complementos para uma luta feminista e de mulheres.

Mas, quando muitos imaginam que a luta das mulheres e das feministas parece desaparecer, ou perder o fôlego, surge na década de 1990, movimentos de mulheres que expõem novas possibilidades. Trazem para a luta as diferentes colorações de suas faces, as diversas experiências vivenciadas, as variadas formas de assujeitamento, a diversidade de condições de vida e de relações de poder.

Provocam um outro pensamento: de que não há uma categoria mulher unitária e, de que as mulheres não são um ser homogêneo. Mas, que no seu interior cabem diferenças de raça, de etnia, de geração e de classe.

A construção homogeneizadora e categorizada do sujeito mulher é colocada em xeque pelos novos movimentos de mulheres negras, de mulheres trabalhadoras rurais, de mulheres indígenas, de mulheres homosexuais, mulheres ambientalistas, para citar alguns. São multiplicidades no interior da diferença de sexo e de gênero que ganham os discursos e as práticas para serem compreendidas, tratadas e estudadas pelo setor público e pela academia.

Ė a diversidade constitutiva das mulheres que adentra o século XXI como um bom desafio para o diálogo com o Estado ainda imberbe no trato com demandas como a justiça, a democracia, o reconhecimento cultural e a igualdade social. As fronteiras entre mulheres brancas e negras, entre indígenas e não indígenas, entre ricas e pobres deve ser problematizada e isto é decisivo para o avanço no projeto feminista. Projeto esse onde já não cabe a unidade de expressões, mas também uma abertura para um fazer feminista por parte do arco-íris montado pelos movimentos de mulheres.

Esses movimentos alimentam o feminismo, porque trazem dimensões diferenciadas de mulheres que lutam pela abolição do patriarcado e da dominação do outro, nas suas mais variadas formas; porque problematizam uma outra era dos feminismos, se quisermos alimentá-lo e compreendê-lo na sua dimensão política e em produção. E é com o olhar político que sugiro olharmos as manifestações no Dia Internacional da Mulher – o dia 8 de março. Nessas manifestações cabe a pluralidade que é hoje o movimento de mulheres. Vá às ruas com suas bandeiras e reivindicações próprias e de seu grupo e expresse o sujeito produtor de sua singularidade e libertação.

Gema Galgani S. L. Esmeraldo
– Professora do depto de Economia Doméstica/UFC; Doutora em Sociologia/UFC e Coordenadora de Pesquisa da Rede Feminista Norte e Nordeste de Núcleos de Estudos da Mulher e de Relações de Gênero/REDOR.

gema@ufc.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here