
Vencedor do Prêmio Gandhi, o jornalista Bruno de Castro lança no dia 6 de outubro, no auditório da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), o livro Nós por nós: mídias negras combatem o racismo. A obra é fruto da dissertação de mestrado desenvolvida pelo cearense e que venceu o Prêmio Lélia Gonzalez, da Associação Brasileira de Antropologia (Aba). Será publicada pela Editora UFC.
O livro reúne depoimentos de 12 comunicadores e comunicadoras de seis estados brasileiros sobre a atuação da imprensa negra desde o fim da década de 1970 até os dias atuais. São iniciativas de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Ceará.
Os(as) entrevistados(as) revelam como jornais e revistas negros foram centrais para as ações de combate à ditadura militar, que dizia não existir racismo no país, e desempenham até hoje – também no mundo digital – função importante na promoção da igualdade racial e desconstrução de mitos sobre a população negra.
O livro revela ainda a existência do Malemba, um jornal negro que circulou em Fortaleza na década de 1990 e era feito pelo Grupo de União e Consciência Negra, o Grucon, coletivo do qual fazia parte o historiador Hilário Ferreira, então estudante da UFC, que viria a se tornar um dos mais importantes nomes do movimento negro no Ceará e faleceu em maio deste ano.
“A história da imprensa no Brasil quase sempre é restrita aos grandes grupos de comunicação. E nenhum deles é negro, apesar de o Brasil ter jornais negros desde 1833. Mesmo em locais que se dizem pioneiros do fim da escravização, como o Ceará, pouco se fala da imprensa negra. Então, são quase 200 anos de um setor que ainda conhecemos muito pouco. Eu mesmo só tomei conhecimento dele quando passei a fazer parte de um projeto de jornalismo antirracista”, afirma Bruno de Castro.
Ele é fundador do Ceará Criolo, o primeiro portal de jornalismo negro do Ceará, no qual atua desde 2018. No Gandhi, o jornalista tem trajetória desde 2011, quando venceu, ao lado da jornalista Ivna Girão, a categoria Jornalismo Impresso com uma série de reportagens sobre a população negra. Em 2023 e em 2025, Bruno ficou em terceiro lugar na categoria Produtor de conteúdo on-line.
“Quase 80% dos jornalistas brasileiros são brancos. Como um jornalista negro, quero contribuir com a preservação da memória da imprensa negra deste país, que sistematicamente tentam apagar da história quando, na verdade, ela deveria constar nos currículos dos cursos de jornalismo do Brasil todo. Não é mais admissível o país formar jornalistas sem oferecer a eles informações sobre a atuação negra, tão relevante à profissão e ao regime democrático”, acrescenta ele.
NOMES DE PESO RECOMENDAM A OBRA
Os textos de apresentação do livro são escritos por grandes nomes do ativismo negro nacional: a antropóloga Vera Rodrigues, a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, a jornalista Fabiana Moraes e a pedagoga Nilma Lino Gomes.
“Este livro expressa um importante salto de qualidade nos estudos sobre imprensa negra no Brasil. Bruno supera o paradigma descritivo das fontes e potencializa as vozes de agentes da comunicação antirracista que asseguraram o registro da incidência política da população negra no debate público desde os anos 1970. Trata-se de uma obra que ensina a ver como projetos de epistemicídio têm sido frustrados em nosso tempo-espaço por comunicadoras(es) negras(os)”, diz Ana Flávia.
“A pesquisa de Bruno de Castro chega em um momento crucial. Vivemos um tempo de recrudescimento global da extrema-direita, com os Estados Unidos à frente de um projeto francamente fascista. Eles também crescem na Europa, na Ásia e na América Latina. Projetos explicitamente antinegros, anti-indígenas, antiperiféricos, misóginos, LGBTfóbicos. É exatamente por isso que uma imprensa que ousa dizer os reais nomes dos fenômenos sociais é necessária”, acrescenta Fabiana Moraes.
“O livro revela como a palavra se consolidou não apenas como instrumento de denúncia, mas como afirmação da voz enquanto gesto de existência. Bruno reposiciona a comunicação no centro do debate sobre relações raciais no país. Ao iluminar trajetórias, disputas e narrativas, este livro evidencia que afirmar a própria voz é afirmar a própria humanidade — ontem, hoje e amanhã”, frisa Nilma Lino Gomes.
SOBRE BRUNO
Nascido em Fortaleza (CE) em 1986, Bruno de Castro é jornalista por formação e mestre em Antropologia. Está prestes a concluir o doutorado em Comunicação na UFC, no qual estuda a relação entre a identidade racial de jornalistas cearenses e as notícias que eles publicam. Já ganhou 22 prêmios em diversas áreas, sendo 15 deles por trabalhos sobre questões raciais.
FICHA TÉCNICA
Autor: Bruno de Castro.
Orientadora da pesquisa: Vera Rodrigues.
Editora: UFC.
Coordenação editorial: Fernando Gleibe.
Projeto gráfico, capa e diagramação: Karlson Gracie.
Revisão de texto: Alana Kercia Barros.
Normalização bibliográfica: Perpétua Socorro T. Guimarães.
Supervisão gráfica: Moacir Ribeiro da Silva.
Diretor da Editora UFC: Cavalcante Jr.
Vice-diretora da Editora UFC: Juliana Diniz.






