O grande filósofo Aristóteles, o terceiro grande pilar da filosofia grega, ao lado de seus antecessores Sócrates e Platão, teve uma interessante colaboração para a noção de alma. O assunto até hoje suscita debates religiosos e científicos .


Aristóteles concebeu que toda a matéria era inerte, não dotada de nenhum movimento intrínseco. Portanto se fazia necessário explicar o princípio do movimento dos seres vivos, surgindo, então, noção de psyque: o princípio que anima e dá vida aos seres vivos Assim, não apenas o homem, mas todos os animais e vegetais teriam psyqué, variando da mais simples, essencial para a mera manutenção da vida, às mais complexas, como a alma humana.


Nesta linha de raciocínio, Aristóteles dividiu a alma em três partes: a alma vegetativa, existente em qualquer ser vivo, na flora, na fauna e no ser humano, responsável pelos instintos e impulsos, necessidades fisiológica, desenvolvimento corporal e reprodução das espécies; a alma sensitiva (desiderativa), própria dos animais e atinente à percepção dos objetos e das sensações, sede do prazer e da dor (desejos e aversões); e a alma intelectiva (pensante), que seria encontrada apenas no ser humano, capaz de pensar discursivamente e elaborar teorias e explicações, formando juízos sobre a realidade.


Neste diapasão, a alma é um truísmo de todas as coisas vivas, que anima e confere vida a tais seres. Tal concepção pode ser também explicada pelo trecho abaixo transcrito, de Solange Vergnières:

“O ethos concerne à parte intermediária da alma. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue, na alma, a aparte que tem o logos da que não o tem. A primeira é a sede das virtudes intelectuais e pode ser educada, (…), pelo ensinamento e exercício. A segunda comporta, por seu turno, duas partes: a parte vegetativa não educável e a desejante; esta última não tem logos, mas é capaz de escutá-lo e de segui-lo por pouco que receba de educação apropriada. O hábito é o meio desta educação, oethos ou o caráter é o seu resultado e pode, pois, ser definido provisoriamente como fruto dos hábitos adquiridos em matéria de prazer ou de pena.”(Vergnières, Solange. Ética e política em Aristóteles: phisys, ethos, nomos. São Paulo: Paulus, 1998, p. 84).


Desta forma, explicitada resumidamente a concepção aristotélica, vemos que sua construção teórica era mais generosa que as atuais. Os animais também tinham um pouco de alma, sendo então mais próximos do humano em função disto. Na concepção contemporânea a alma é uma exclusividade humana, sendo os animais seres destituídos deste elemento.


Já o Cântico das Criaturas, atribuído a São Francisco de Assis, embora não atribua aos seres que menciona a existência da alma, agradece a existência bondosa destes, como no trecho em que fala da água:

Louvado seja pela preciosa,

Bondosa água, irmã útil e bela,

Que brota humilde. É casta e se oferece

A todo o que apetece o gosto dela.


A água em São Francisco toma dimensões humanas, assim como o sol, as estrelas e as nuvens. É uma relação de afeto com a natureza, onde cada ser inanimado ser torna vivo e com características humanas positivas: humildade, generosidade e bondade. O homem e a natureza, por estas concepções, se aproximam numa relação de maior interdependência.


Nós, humanos pós-modernos, tão desalmados pelo cotidiano sem afeto, sem poesia e sem graça, talvez possamos retomar, ainda que em romance, estas idéias para, quem sabe, tocarmos o mundo de uma forma mais carinhosa. Um passo em direção a uma nova vida, mais rica em percepções, desperta de toda alienação.


* Artigo publicado em 01.10.2010 no jornal O Estado e reproduzido neste site com autorização do autor.

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