
Pesquisadores localizaram cinco exemplares da espécie durante trabalho de campo no Parque Estadual do Cânion do Rio Poti; amostras coletadas vão subsidiar estudos genéticos e ações de conservação
Uma expedição científica realizada no Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, em Buriti dos Montes, no Piauí, reuniu informações importantes para a conservação do tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), espécie ameaçada pela perda de habitat no semiárido brasileiro. Entre os dias 1º e 6 de setembro, pesquisadores percorreram a unidade de conservação para localizar animais, avaliar as condições de saúde e coletar material para estudos genéticos e epidemiológicos.
Durante os cinco dias de trabalho, cinco tatus-bola foram encontrados. Os animais passaram por procedimentos de manejo seguindo protocolos de biossegurança e bem-estar. Foram coletadas amostras de sangue, fezes, tecidos e parasitas, além de dados biométricos, como peso e medidas corporais.
Após a coleta, todos os animais foram devolvidos ao mesmo ponto em que haviam sido encontrados.
A atividade integra o projeto No Clima da Caatinga, desenvolvido pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. A equipe de campo contou com veterinárias do Instituto Tamanduá, fotógrafo e especialista em geoprocessamento, além do apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Dados genéticos podem ajudar no planejamento da conservação

O material coletado durante a expedição será incorporado a um banco de dados unificado. A expectativa é que as análises permitam compreender melhor a diversidade genética das populações de tatu-bola na região, além de identificar possíveis relações de parentesco e níveis de endogamia, que ocorre quando há cruzamentos entre indivíduos aparentados.
Segundo a veterinária Maíra Prestes, do Instituto Tamanduá, as amostras também poderão ser utilizadas em pesquisas sobre agentes causadores de doenças.
“Essas amostras vão permitir estudos de genética populacional, que fazem parte dos esforços de conservação da espécie”, explica.
A pesquisadora destaca ainda a importância de manter o material armazenado para futuras investigações.
“Se um dia houver algum declínio populacional na região e não soubermos a causa, teremos amostra para investigar a presença ou ausência desses patógenos. Essa é a importância de ter esse banco”, afirma.
Para Samuel Portela, coordenador de conservação da Associação Caatinga, os dados genéticos podem contribuir para identificar quais grupos estão mais vulneráveis e orientar as estratégias de proteção.
“O valor desse trabalho está em transformar dados genéticos em decisões concretas de manejo. Não basta apenas registrar a presença da espécie; precisamos saber quais populações estão mais vulneráveis para agir no lugar certo”, explica.
Pesquisa acompanha população de tatu-bola há uma década
A expedição realizada em setembro representa a terceira etapa de um trabalho iniciado há dez anos na região. Em 2016, a primeira visita de pesquisadores ao cânion confirmou a presença histórica do tatu-bola e reuniu informações técnicas que contribuíram para a criação do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti.
A unidade de conservação possui 24 mil hectares e reúne áreas de Caatinga, fauna, flora e sítios de arte rupestre.
O parque também está conectado a áreas protegidas localizadas no Ceará, entre elas a APA Boqueirão do Rio Poti e a Reserva Natural Serra das Almas. Juntas, essas áreas formam um corredor ecológico contínuo para a fauna nativa.
Tatu-bola está entre as espécies monitoradas pelo PAN TATA

As ações de pesquisa também fazem parte do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tamanduás e Tatus Ameaçados de Extinção (PAN TATA), coordenado pelo ICMBio.
A Associação Caatinga integra o comitê técnico do plano e acompanha as metas de conservação desde o primeiro ciclo. O trabalho busca aproximar as informações produzidas em campo das estratégias nacionais voltadas à proteção das espécies ameaçadas.
Para a organização, a integração entre pesquisa científica e políticas públicas é fundamental para acompanhar as populações de tatu-bola e orientar medidas de conservação na Caatinga.
Projeto atua na conservação da Caatinga
O projeto No Clima da Caatinga atua no semiárido brasileiro desde 2011. A iniciativa tem entre seus objetivos contribuir para a adaptação climática de comunidades rurais, reduzir os impactos do aquecimento global e conservar a Caatinga, seus recursos hídricos e espécies da fauna, entre elas o tatu-bola.
O projeto é realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua desde 1998 na conservação do bioma e no incentivo ao desenvolvimento local sustentável. A entidade também trabalha com comunidades rurais para ampliar a resiliência diante da semiaridez e dos efeitos do aquecimento global.










